segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

o menino, a menina.

Lembro da história do menino que se sentia só. Chorava todas as noites tentando entender tamanha sensação ruim, praticamente sentia pena de si mesmo, imaginando-se sozinho nos dias de chuva pelo resto dos tempos.
Lia livros sonhando com vidas que não eram dele, ouvia músicas e criava cenas que poderiam ter existido.
Agarrava-se a cada grampo de cabelo, segurava cada roupa ou cheiro esquecido; resquícios de pessoas que passaram por sua vida. Prendia-os tão forte com medo de não ter mais ninguém, que não lembrara que foi ele mesmo quem as mandou embora.
Trancou a porta, fechou janelas, sem ao menos dar-se conta.
E passado o cadeado, não sobravam frestas para quem olhasse pelo lado da fechadura sem chave.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 25 de dezembro de 2011

Sobre natais...

Sem toques nem sinos, ou palavras e braços.

Fica um sopro dentro de mim que por vezes vira ventania tentando ocupar todo o meu vazio.

E a gente sempre tem aquele fiozinho de esperança que um milagre natalino aconteça.

…por menos que acreditemos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

JUMP IN.

Sinto uma vontade de mim que nunca senti. O momento é meu.
Me vejo fazendo inúmeros planos, e ao contrário de sempre, não me sinto idiota em fazê-los.
O sentimento é de estar viva depois de anos entorpecida, talvez uma vida inteira!
O que mudou? Nada.
A falta de encaixe, a sensação de perdida, a solidão, intrínsecas em mim fizeram me aceitar.
Tenho feito dessa inquietação coisa boa.
Transbordo expectativas, metas e não as chamo de sonhos porque soariam inalcançaveis, gosto de enxergá-las como grandes possibilidades, realizações.
Como se o mundo fosse realmente pequeno demais pra mim.
Gosto da minha companhia, valorizo minha liberdade e a MINHA descoberta tem sido tão gratificante que neste instante, não CABE em minha vida ninguém além de mim, (com todo o egoísmo que possa soar!) E pela primeira vez isso não me parece assustador, at all.
No fim das contas, tudo mudou então.
Eu VEJO isso agora.

terça-feira, 8 de junho de 2010

'Pelos cotovelos' - Sobre falar sozinha.

Por mais rodeada de pessoas que eu possa estar, me sentir completamente sozinha sempre foi normal pra mim.
Levo isso comigo desde que me conheço por gente, talvez por minha própria culpa. Pela minha conhecida timidez, ou pelo meu desinteresse mesmo em qualquer conversa, com qualquer pessoa.
Eu parecia estar calejada dessa sensação. Acostumada a não ter como dividir com alguém as discussões, indagações, conclusões, opiniões que pra mim, nunca são suficientes. Bater papos BONS mesmo, que valessem a pena e um dia inteiro.
Mas a necessidade de as vezes ouvir uma outra voz junto com a minha, tem me assustado, me deixado mal.
Em casa, alguns amigos, no bar, conhecendo pessoas ou no msn, não é assim que funciona, não é qualquer 'small talk'.

Na falta disso eu escrevo, como se estivesse falando comigo mesma.
Não, não ajuda.
Não, não é a mesma coisa.

Mas dá ao menos pra tirar algumas coisas da cabeça, alguns desabafos...

Ou talvez não faça nenhum sentido, sei lá.

Sei que o que eu preciso mesmo, são grandes conversas e fora da minha cabeça.
Apenas isso, juro e nada mais.

All I need...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

buracos.

Eu espero muito de mim.
Me cobro a maior parte do tempo.
Talvez eu nunca pare de questionar a vida, a minha pricipalmente.
Até pelo menos não sentir mais esse eterno vazio que eu nunca soube preencher.
Tenho mil expectativas, e levo junto a elas o peso de uma bigorna em cada ombro por não saber supri-las, entende-las ou simplesmente dividi-las.
Me curvo, cansada.
Assim como a menina que tanto almejou alcançar a Lua, por hora, desisti.
Tenho me arrastado. Por acreditar (ou desacreditar ?), que nunca serei boa suficiente pra mim mesma.
Vivo então no piloto automático.
Nao ando. Nem pra frente nem pra trás.
No momento me escondo.
Dentro da minha caixa, quase com vergonha. Por ter perdido a fé naquela pitada de mágica que pode existir na vida, ou podemos chamar de pequenos milagres (tanto faz). Aquele sentimento que não conseguimos explicar, mas nos faz otimistas de alguma forma pelo que está por vir.
A tal da esperança.
A menina que gostava da sensação de olhar pra Lua e sonhar que um dia iria além dela, (não sem antes fazer uma escala na mesma para dançar loucamente), que sempre gostou das longas conversas, de pessoas inteiras, de acrescentar e questionar o mundo, está se perdendo pouco a pouco no meio de suas frustrações, tombos e ilusões.
Ela não espera por mais nada, ela não consegue acreditar mais...

Eu poderia poupar algumas dores de cabeça e aquele frio na espinha constantes, simplesmente não pensando nisso at all. mas não sei o quanto disso me faria mais vazia do que já me sinto. não seria eu, afinal.
=/

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

interior.

"Some people sleep easy, some people don't
I see you keep the light on, stops you feeling so alone
Some people make it better, some make it worse
He thought he held you lightly, but he got you where it hurts
You're not the one, you're not the one to blame.."
Dream on Hayley - James Morrison
-
tem um nó na garganta, que precisa sair na forma de palavras, mas não sai.
ontem eu escrevi, escrevi, mas não consegui nada de muito concreto.
escrevi sentada na cama vazia, olhando pra bolsa pendurada na maçaneta da porta fechada.
meu quarto.
quase um refugio.
escrevi como o barulho da chuva na janela me lembra música.
as músicas.
o som da tv, que só nao estava mais longe do que alguns pensamentos meus.
ou dos resquícios das coisas boas.
e de como minha bagunça não se resume às roupas espalhadas e armarios desarrumados. assim como a minha vergonhosa timidez, ela está intrínseca em mim.
aquela bagunça que nem eu entendo, que ocupa todos neurônios quando deito a cabeça no travesseiro. que assusta os outros e faz ninguém querer ficar.
e que por isso, agora é só minha.


-sabe o nó, as palavras, o que eu preciso expressar? simplesmente não sai.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

a INCRÍVEL arte do acreditar.

começa abrindo um olho.
para abrir o outro depois, é um pulo.
aí você percebe que seu quarto não é azul de bolinhas brancas, nem sua cama a morada de monstros assustadores.
mas a maior parte do tempo, ficamos de olhos fechados. e por vontade própria.

'..I've spent so long firmly looking outside me
I've spent so much time living in survival mode.' - Precious Illusions - Alanis Morissete
.
'For a fake chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself
It wears her out, it wears her out
It wears her out, it wears her out
She lives with a broken man
A cracked polystyrene man
Who just crumbles and burns
He used to do surgery
On girls in the eighties
But gravity always wins
And it wears him out, it wears him out
It wears him out, it wears him out
She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run
And it wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out
And if I could be who you wanted
If I could be who you wanted
All the time, all the time' - Fake Plastic Trees - Radiohead

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

técnica da cadeira vazia.

Te acalma.
Me acalma.
Não é tão assustador.
Enxuga esse choro, engole essa lágrima, eu estou aqui.
O medo te envolve, meus braços também.
Então, canta que eu canto junto.

Canta que te faz dormir.

Canta que te faz sonhar.

Canta que me faz lembrar.

Minhas mãos enroscam nas suas, minha testa de encontro com seu beijo, eu sempre de encaixe no seu peito, dentro do teu abraço.
Levanta esse sorriso, abre essa cabeça, eu continuo do seu lado.
Meus passos deixando outras pegadas, minha mão escapando da sua, nossos olhares desviados.

Te protege.
Me protege.
Não é escuro assim, e nem você tão sozinha.



'... If I sing a song will you sing along?
Or should I just keep singing right here by myself?
If I follow along does it mean I belong?
Or will I keep on feeling different from everyobody else?...'

domingo, 13 de setembro de 2009

João, Maria e o caminho.

Então eu andei .
Pra frente, pelo menos era o almejado.
Com todos medos, inseguranças. Centenas de dúvidas, algumas certezas.
O que me movia, algo grande. Só eu sabia o quão grande.
Eu te alcancei ou você me alcançou, nao sei, isso não importa.
Andamos juntos um tempo.
Eu tropeçava com a minha falta de jeito, a gente ria.
Você parava, perguntando-se sobre o caminho certo, e eu apenas pegava tua mão.
Não sei em qual parte do trajeto a gente se perdeu.
Como em João e Maria, os pedaços de pão foram deixados pra trás, para sempre lembrarmos de onde tínhamos vindo.
Mas eu não me recordo em qual momento você ficou pra trás, ou pode-se dizer, em qual momento você ficou longe de mim?
Eu te chamei e você parecia não me ouvir.
Eu te chamei e você parecia não QUERER me ouvir.
No meu medo corriqueiro, ajudar era voltar pra te buscar. Pegar pelas mãos ou empurrar se preciso.
Na ansiedade costumeira, eu deveria continuar sozinha, mesmo sem o impulso.
Seu cansaço. Seu novo caminho. Sua espera por mim.
A distância não me deixava saber. Sua voz, agora apenas um sussuro.
Sob nossos pés, um chão arenoso que fazia dos meus passos estranhos e difíceis. Me tornava lenta.
Só assim me percebi sem fôlego.

Foi então que parei mais uma vez.
Assim, com o frio gelado subindo pela minha espinha, eu estou de pé, mas estou parada. Esperando o tal sopro quente e bom no meu pescoço.